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Os dois Globalismos



Esse processo político é, na verdade, a maior ameaça que paira sobre a humanidade desde a origem, uma vez que tal entidade política mundial não poderia ser outra coisa que não uma ditadura de uma elite burocrática iluminada que governaria acima e além dos anseios de liberdade das pessoas. Seria uma ditadura de fazer empalidecer qualquer outra do passado, desde a estrutura imperial do antigo Egito. O próprio processo de fazer desaparecer as instâncias autônomas nacionais não poderia ser pacífico, pois precisariam ter suas forças de defesa destruídas. A campanha eleitoral nos EUA trouxe à baila o embate das forças antagônicas em luta, Hillary representando a elite globalista que propõe o governo mundial – na verdade, uma ditadura policial feroz sobre toda a gente – e Trump representando as forças que defendem a autonomia das instâncias nacionais.
Uma boa verbalização desses (maus) propósitos pode ser lida na encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, que predica, a propósito da questão ambiental, tão cara aos globalistas:
“174. Mencionemos também o sistema de governança dos oceanos. Com efeito, embora tenha havido várias convenções internacionais e regionais, a fragmentação e a falta de severos mecanismos de regulamentação, controle e sanção acabam por minar todos os esforços. O problema crescente dos resíduos marinhos e da protecção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais continua a representar um desafio especial. Em definitivo, precisamos de um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais.
175
. A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos duma reacção global mais responsável, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema de governança próprio de épocas passadas, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto, torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar.
O papa não esconde sua crítica ao “sistema de governança próprio de outras épocas”, ou seja, o Estado nacional como ele é. Defender “instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas” não passa da defesa explícita desse totalitarismo mundial nascente. Não espanta que o chefe da Igreja Católica se sinta tão à vontade para defender tal alucinação política, pois a Igreja foi invadida e tomada pelas ideias comunistas desde meados do século passado, assassinado dessa forma sua própria tradição. O Papa Francisco é o apogeu, o epitome desse processo, fazendo da Igreja Católica a vanguarda das forças “progressistas” que pugnam pela globalização. Não preciso dizer que isso significa a auto destruição da instituição romana e a negação de seu papel teológico, a simples subordinação do pontífice e da própria Igreja ao reino desse mundo, tão denunciado nos textos evangélicos.


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Essa globalização que está em pauta, tão deletéria e perigosa, esconde outra, que ocorreu principalmente desde o século XIX, que é a integração econômica. Veja-se que esta globalização não implica naquela outra defendida por Hillary Clinton e pelo papa. Aliás, ela foi obra da Inglaterra, cuja Coroa aceitou os preceitos dos grandes economistas do Reino Unido daquele século, notadamente Smith e Ricardo. Com efeito, a globalização econômica transfere a toda a humanidade os benefícios da divisão do trabalho e da elevação da produtividade automaticamente, via mecanismos de preços, fato que, para demonstrar, demandou o esforço teórico daqueles grandes gênios da ciência econômica. Sem ela, o mundo se entraria ainda em meio à miséria dos tempos antigos.
Aceitar a globalização à inglesa, que é o pressuposto da prosperidade econômica, não implica em defender a globalização política. Ao contrário, os ingleses de ontem e os de hoje se irmanaram para a defesa de seu Estado nacional na histórica votação do Brexit. Deram um sonoro “Não!” ao governo mundial, o que todos os países deveriam fazer de forma expedita. As eleições nos EUA colocam a disputa nos mesmos termos e é evidente que o triunfo eventual de Hillary Clinton seria um passo gigantesco no rumo da ditadura policial globalista.
O globalismo político exige o sacrifício das particularidades culturais e políticas dos povos que hoje estão sob o abrigo de seus próprios estados nacionais, que sempre foram usados para defender exatamente essa independência e particularidades. Por isso o inimigo principal dos globalistas políticos é o Estado nacional ele mesmo. Desde 1945 estão homogeneizando passo a passo os marcos jurídicos nacionais. Nós mesmos aprovamos, como se emeda constitucional (Emenda Constitucional 45) fosse, de forma automática, ditames de instâncias coletivas internacionais. Direitos humanos plásticos e elásticos que mudam permanentemente e que, mais das vezes, nem direitos humanos são, inclusive com o tema bisonho do ambientalismo, se tornaram o flagelo da nossa gente nas decisões do STF desde então. É com esse truque verbal que os globalistas estão avançando de forma inexorável, daí a importância histórica do Brexit e das eleições nos EUA.
Embaralhar o significado das coisas é a arte de engodo dos globalistas, a começar mesmo pelo significado da palavra globalização. Ela é boa e bem vinda nos termos de Smith e Ricardo. Ela é nefasta e deletéria nos termos papais e de Hillary Clinton. Nunca foi tão atual a advertência do Cristo ao dizer: “Orai e vigiai”. A ameaça satânica do “reino desse mundo”, a Babilônia do Apocalipse, nunca foi tão presente.
Quem viver verá.

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